Sou só isso, ou assim penso eu

Estou com quarenta anos e já deveria saber exatamente quem eu sou nessa fase da vida, mas não sei. Eu já fui diferente, já me vi em algumas fases e facetas que hoje não existem mais, já me julguei de diferentes formas e não sei dizer qual delas é a real.

Isso não é demérito, mas com certeza é de alguma imaturidade, é inquietante, é até mesmo um pouco desolador. Durante algum tempo, recebi sugestão da minha esposa para procurar terapia e tratar meus problemas, que se manifestam muito mais no trabalho do que na vida pessoal, mas sempre relutei, porque me considerava resiliente e autossuficiente, não precisava disso. Mais uma mudança, procurei ajuda e estou, enfim, conseguindo encontrar alguma paz com o tanto de contradições que eu sou.

Sei que esse clichê de ser contraditório não é exclusividade minha, mas tendo a ver as coisas em forma cartesiana ao invés de encarar a realidade nebulosa e caótica da natureza e das pessoas. Essa forma simplista, que é meu modelo mental de ler o mundo, me cega para muitas coisas em mim e nos outros, ironicamente, também me ressalta aspectos que passariam despercebidos com outra leitura da realidade. A grande sacada que estou aprendendo é ter mais consciência disso, ser mais atento à realidade como um todo e não somente ao processamento natural que minha mente faz dela.

Aqui, mais uma ironia, eu que me vi sempre tão racional, lógico, frio até, me descubro cada vez mais emotivo, passional e impulsivo do que gostaria de admitir. Mesmo sendo introspectivo minha vida toda, nunca havia percebido essa contradição extrema entre o que eu percebia e o que eu sou, um paradoxo ambulante, cego, às vezes furioso e outras feliz criador de paródias espontâneas nos momentos mais aleatórios da vida.

Eis aí mesmo outras dificuldades: como aceitar ser essa pessoa contraditória, maniqueísta, imatura enquanto se é tão exigente de si mesmo?; como se livrar da culpa de descobrir que aquele modelo mental criado por mim é uma farsa?; como se dar menos importância?

Apesar desses questionamentos sugerirem ideia contrária, acredito já ter aprendido o que fazer, agora, como em qualquer aprendizado, é questão de experiência. Há esperança em mim, mesmo sendo pessimista por natureza, não consigo ver época melhor para ter iniciado esse caminho de autoconhecimento com ajuda, com dedicação, com experiência de vida.

Claro, nada disso garante que deixarei de ser um maniqueísta imaturo e idealista, que gosta de trabalhar sempre fazendo o melhor que consegue, da melhor forma ditada pelas práticas que conhece (e que procura conhecer). Também nada garante que deixarei de ser o chato que gosta de discutir religião e política, o ranzinza que não é romântico, o bobalhão que cantarola paródias pela casa, o adulto que joga Minecraft. Tenho a sorte de já ter encontrado o amor da minha vida, que me aceita desse jeito antes mesmo de eu me aceitar. Dos outros não espero nada, somente que respeitem quem sou.