Crônica do Mineirinho
Esse texto eu fiz para a minha sobrinha, que recém nasceu (eu sei que ela não lê, é uma história longa), mas quis publicar aqui também, porque eu acho que fala tanto pra mim quanto pra ela.
Em 25/09/2025 o skatista Mineirinho bateu o recorde mundial de altura no drop in aqui em Porto Alegre ao descer do prédio do CAFF a uma altura de setenta metros (é alto!), dizem que ele atingiu 110 km/h. Ele realizou um sonho, a Red Bull – patrocinadora – ganhou um dinheiro, a cidade ganhou fama internacional, todo porto-alegrense viu concretizado um pensamento coletivo da capital. A descida levou pouquíssimos segundos, mas pro Mineirinho se colocar em posição vindo do topo do prédio foram alguns minutos, já pra ele resistir à força G e se manter em equilíbrio foram meses de prepração, pra ideia na cabeça dele descer a rampa do prédio levou doze anos.
Em 2025 a gente vive uma época estranha, um tempo imediatista de pessoas apressadas e sem paciência, de informação abundante e irrelevante, é esse o mundo que a minha geração está deixando pra tua. O vídeo do Mineirinho descendo a rampa estava disponível ao vivo pro mundo todo acompanhar, entusiastas do skate, porto-alegrenses em peso e curiosos diversos aguardando apreensiva e pacientemente pelo momento do recorde. Um contraste interessante com essas mesmas pessoas frente ao atendente da loja, ao caixa de supermercado, à fila do banco, à espera da consulta médica, a caminho de casa na rua. Em todas essas ocasiões essas mesmas pessoas estariam coladas às suas telas, imersas em um outro mundo e alheias ao seu redor, uma ânsia por se comunicar de alguma forma, seja recebendo, seja criando uma mensagem inútil e imediata ou não conseguindo esperar alguns minutos para realizar essa tarefa em local melhor e mais seguro do que ao atravessar a rua de uma via movimentada.
O ócio, o tédio, o tempo pra pensar sozinho, pra olhar ao redor, pra notar um relevo qualquer de uma cidade qualquer e ter uma ideia qualquer se foi. Claro, eu não sou imune, sou um ser da minha época, mas tento não ser tão nocivo a mim mesmo quanto a média dos meus contemporâneos. Ainda me permito alguns luxos, como ter redes sociais menos utilizadas e que não recompensam comportamentos impulsivos ou viciantes (à exceção do YouTube), às vezes me chamam de estranho ou ermitão, mas na verdade é o contrário. Imagina um restaurante cheio, onde todas as pessoas estão olhando seus celulares e imersas na realidade paralela da internet, quando tu olhas ao teu redor é engraçado notar que tu és um ermitão no meio de tantos zumbis.
Esse tempo de ócio e de observação, essa paciência com o tédio ou com uma espera mesmo nos dá oportunidades de observar, alimenta a curiosidade e exercita a criatividade, além de poder nos aproximar mais das pessoas e de maneira verdadeira. Durante muito tempo, caminhei somente olhando pra baixo, desviando um pouco das pessoas e evitando contatos visuais, tivesse um celular nessa época, provavelmente reproduziria todo comportamento que critiquei aqui. Hoje entendo os velhos que sentam nos bancos das praças ou que sentam em suas sacadas para observar o movimento das ruas, esses são os momentos de contemplação e de ócio que os conectam com o ambiente em que estão inseridos. Ao caminhar aprendi um exercício que gosto muito, observar de volta as sacadas e janelas dos prédios, observar um pedaço exposto do interior dos apartamentos, o que as pessoas deixam nas sacadas, os rostos surpresos das pessoas que não esperam serem elas os objetos de observação dos transeuntes ou até mesmo flagrar pessoas de toalhas seguras por essa convicção de que ninguém olha pra cima ao transitar pelas ruas.
Ganho o que com isso? Ganha o que o Mineirinho descendo do CAFF de skate? Está certo, ele ganhou dinheiro pra arriscar a vida descendo o prédio, mas ele também não ganhou nada ao observar a paisagem urbana e sonhar em descer. E se não tivesse descido, qual seria o problema? Tem tanta gente que passa pelo CAFF olhando pro celular que nem nota a curvatura do prédio, essas informações que coletamos, que processamos, que transformamos no nosso cérebro nos exercitam a mente, a criatividade, o olhar observador. Elas têm uma profundidade que telas não reproduzem nas suas duas dimensões.