Vibe coding rant
As relações de trabalho têm tensões entre aqueles que fazem e aqueles que mandam. Inspirados por Taylor, os gestores tentam se apossar do tempo e do trabalho, extirpando o quanto for possível o poder detido pelos trabalhadores. Há várias formas disso se manifestar: desde ditar o tempo que uma tarefa deve ser feita, tratando pessoas como máquinas precisas e inequívocas, a remover o conhecimento sobre o trabalho dos trabalhadores, reduzindo suas atividades a tarefas repetitivas, tornando-os substituíveis. A sociedade moderna tem um nome bonito para a última forma citada anteriormente: automação. Minha profissão – desenvolvedor de software – é uma das que mais colabora para que a automação se concretize e transforma o mercado de trabalho há décadas, eliminando postos de trabalho com a justificativa de incremento de eficiência.
Hoje, tenho a facilidade de entrar em contato com centrais de atendimento diversas da comodidade da minha casa graças à automação. Hoje, também, tenho a dificuldade de ser atendido em meus pedidos mais simples por essas mesmas centrais de atendimento graças à automação. No que isso aumentou a eficiência do atendimento para mim? Em nada. Preferia me deslocar até o banco, até a operadora de internet ou telefone e falar com uma pessoa, como faziam os Maias, que resolveria meu problema com uma simples conversa. Tenho essa opção hoje, mas o atendente da loja utiliza o mesmo sistema do atendente da central telefônica, a eficiência da empresa tornou ambos os atendimentos igualmente ineficazes para resolução do meu problema.
Meus antepassados das eras do COBOL, Clipper, Delphi e outras línguas quase mortas da TI faziam apenas o seu trabalho ao especificar e implementar sistemas corporativos, tornando obsoletos, um a um, papéis da força de trabalho que os gestores diziam ser ineficientes. Minha geração seguiu de forma acelerada essa mesma prática, pois esse é o nosso trabalho: sistematizar, otimizar. Nos tornamos importantes para as corporações, muitos gestores dizem até que nos tornamos “importantes demais”, algumas vezes chegando a exigir das organizações volumosas (e cada vez maiores) somas financeiras, que talvez extrapolem pelas dezenas de vezes o valor dos empregos que automatizamos, para desgosto e simultâneo deleite dos gestores. Lembremo-nos do caso das centrais de atendimento, a eficiência pode ser medida por diferentes dimensões, e dinheiro não é a única. Sistemas digitais são particularmente eficientes em aumentar o controle, a vigilância e a impessoalidade.
Todo esse contexto me traz ao assunto principal (que a prolixidade me fez circundar um pouco): vibe coding. Há décadas os gestores propagam mágicas para substituir os programadores, esses sanguessugas de dinheiro arrogantes e complicados, que sempre colocam alguma dificuldade para a evolução das organizações. Foram diversas promessas de aplicações para gerar aplicações com pouco ou nenhum conhecimento de programação, vendidas como balas de prata a gestores menos cautelosos, que pagaram por seu arrojo com decepção. Ao longo dos anos mudaram de nome, mudaram de forma, low-code, no-code, everyone should learn to code. Todas são tentativas de destruir a carreira de programador.
Mas essa indústria da tecnologia aprende e se adapta muito rápido, sabem que ideias que não dão certo devem ser descartadas e substituídas por novas, tudo é hype e a pressa é criar o novo hype para ganhar dinheiro, mesmo que mentindo, aproveitar e surfar a onda enquanto a maré estiver propícia, ao mesmo tempo procura outra praia menos frequentada para o próximo verão. Embora as tentativas de acabar com a carreira de programador não tenham dado certo, o objetivo continua vivo e à espera de uma nova desculpa ou técnica avassaladora, eis que as LLMs chegam e começam a criar código. Aí está, vamos inventar uma nova forma de programar: vamos comandar uma LLM e deixar que ela transforme nossa linguagem natural em código.
CEOs de empresas de tecnologia alegam que isso vai diminuir custos, aumentar produtividade, aumentar eficiência, fazem layoff de engenheiros de software, contratam menos pessoas inexperientes, tudo para alimentar a ideia de que essa é a bala de prata que vai “democratizar” o desenvolvimento de software.
Paro por aqui, meu estômago ronca, não sou uma máquina :)